ARTIGO
1968: O ano revolucionário
Costuma-se identificar “1968” só, ou principalmente, com o maio francês. É esquecer a amplidão não só européia, mas mundial, que tiveram os acontecimentos desse ano, que mudaram o curso da história contemporânea.
A rebelião de 1968 debutou, em janeiro, com a "ofensiva Tet" do Vietcong, que acuou no Vietnã as tropas invasoras ianques, dando-lhes um golpe decisivo, em que pese seu enorme custo em vidas e o fracasso de seus objetivos imediatos. O seu impacto foi enorme, em todo o mundo, mas particularmente nos EUA, onde o movimento contra a guerra crescia sem parar, em especial nas universidades. Em abril, o massacre de mulheres e crianças (mais de 500) no povoado de My Lai provocou uma comoção internacional. Os EUA foram postos na defensiva, o presidente Lyndon Johnson teve que renunciar à intenção de obter um segundo mandato. E o regime político norte-americano foi sacudido nesse mesmo ano com dois assassinatos políticos: o de Martin Luther King, em abril, e o de Robert Kennedy pouco tempo depois.
Em maio, explodiu a rebelião estudantil na França, que se desdobraria numa impressionante greve geral dos trabalhadores, com ocupação de inúmeras fábricas e locais de trabalho. Em agosto, o centro dos acontecimentos se deslocou violentamente para Europa do Leste. Cinco mil tanques russos, acompanhando 200 mil soldados invadiram a Tchecoslováquia para esmagar a "primavera de Praga", marco histórico das rebeliões que já abalavam o território dominado pelo stalinismo e seus governos na Europa Oriental. O proletariado e a juventude dos Estados não capitalistas ocuparam o centro do palco na luta contra o domínio dos usurpadores que governavam em seu nome. Finalmente, quando o ano se aproximava ao seu fim, a polícia e o exército mexicanos reprimiram violentamente uma enorme concentração estudantil, assassinando dezenas de companheiros no massacre da Praça de Tlatelolco.
Esses são os fatos mais conhecidos. Deve lembrar-se também que o proletariado uruguaio se levantava contra o governo, criando uma situação revolucionária. Na Bolívia, a guerrilha de Inti Peredo lutava, depois do assassinato do Che em outubro de 1967, contra a agônica ditadura do general Barrientos. No Brasil, os estudantes se mobilizavam contra a ditadura ocupando as ruas; na Argentina, começavam as greves que culminariam, em maio de 1969, no cordobazo; em El Salvador uma greve geral de professores fazia tremer o país. E isto só para ficar perto das nossas fronteiras, pois na Itália, na Espanha, na Inglaterra, na Alemanha, na Polônia, no Japão, a revolta dos estudantes, as greves e a radicalização política traçavam seu próprio caminho.
Em 1968, os estudantes japoneses fizeram uma marcha de 1200 km, de Tóquio ao porto de Sasebo, para se opor à escala técnica do porta-aviões Enterprise (da Marinha dos EUA, a caminho para a guerra no Vietnã) e ao governo Sato. A solidariedade popular com os estudantes foi enorme. Em 1969, a luta nas universidades cresceu, chegando a impedir durante um ano o funcionamento da Universidade de Tóquio. O governo lançou uma campanha repressiva, com retenção de salário de docentes e funcionários, expulsão de estudantes e redução do número de universidades públicas. Na China, chegava-se ao ponto mais alto da "revolução cultural”, expresso na chamada “Comuna de Xangai”. 1968, como se vê, não foi um happening contra a "sociedade de consumo".
A rebelião mundial marcou a quebra dos equilíbrios políticos e econômicos montados durante o fim da Segunda Guerra Mundial. Pela primeira vez, no pós-guerra, apareciam no primeiro plano as massas exploradas, em uma revolta "global", que abalava os pilares da ordem estabelecida em meados da década de 1940 pelos acordos entre o imperialismo e os burocratas do Kremlin, nas conferências de Ialta e Potsdam.
Paris e Praga não só minaram a "coexistência pacífica" entre burocratas e exploradores, mas também enterraram a teoria, então dominante na intelectualidade de esquerda, acerca da irremediável "integração" do proletariado na sociedade existente. Em 1968, a idéia da quebra definitiva das possibilidades revolucionárias históricas da classe operária mundial sofreu uma derrota que modificou a linha de ação do imperialismo mundial nas décadas ulteriores. O ciclo de revoluções, iniciado em 1968, só veio a se fechar, provisoriamente, com a derrota da revolução portuguesa, em 1975, e da revolução sandinista e do levantamento da Polônia, em inícios da década de 1980.
1968 demonstrou o caráter mundial da luta de classes, reflexo da própria natureza do modo de produção capitalista. O “ano revolucionário” foi preparado por todas as contradições da ordem mundial montada no pós-guerra. Em 1968 se evidenciou a falência da arquitetura econômica internacional capitalista. Os gastos da guerra do Vietnã, os da reconstrução européia, os recursos que requeria o deslocamento sem fronteiras das tropas norte-americanas, tinham dizimado as reservas de ouro norte-americanas, sobre as quais repousava a estrutura do comércio e do fluxo financeiro mundial. Abriu-se então a perspectiva de uma desvalorização do dólar (e do restante das moedas, que o reconheciam como meio de troca universal) e da fratura dos intercâmbios econômicos internacionais.
O governo norte-americano teve que apelar nesse ano a medidas parciais de desvalorização do dólar, que se transformariam na declaração de não-conversibilidade da “moeda universal”, em 1971. Esse declínio econômico, já evidente no final da década de 1960, explodiria na década seguinte com a primeira crise econômica general do pós-guerra. Estava terminada a situação de "prosperidade" econômica que veio com a reconstrução do pós-guerra, "prosperidade" que os adoradores do capitalismo apresentavam como eterna. Desde finais dos anos sessenta, após vinte anos de crescimento eufórico, o sistema capitalista voltava a ver de frente um pesadelo que parecia haver passado a história plasmada em imagens amareladas: a crise geral.
Os trabalhadores que hoje enfrentam a crise não têm, talvez, a experiência dos seus antepassados, porém também não estão imersos na desmoralização. A formidável reação, que desde 1968-69 tem oposto a classe operária às manifestações da crise, significa que a burguesia não está em condições para impor a única saída que é capaz de dar à crise, um novo holocausto mundial. Primeiramente teria de vencer a classe operária mundial. Desde finais da década de 1960, o aumento impressionante da venda de armas de guerra se integra ao reforço geral e sistemático dos dispositivos de repressão, de luta contra a "subversão terrorista" por parte dos estados capitalistas, ao mesmo tempo em que procura instituir toda uma série de meios de enquadramento do proletariado e de desvio de suas lutas. Porque contra uma combatividade operária em plena renovação, a burguesia não pode opor, sem cada vez com maiores dificuldades, a simples repressão aberta que faz com que corra o risco de unificar as lutas em vez de dissipá-las.
Certamente, a realidade atual não está só determinada pelo despertar do proletariado nos finais dos anos 1960, após quase meio século de contra-revolução. O desmoronamento dos países "socialistas" no final dos anos 1980 provocou um profundo retrocesso na consciência e na combatividade da classe operária. O peso desse retrocesso se manifesta ainda hoje através das dificuldades que tem o proletariado para desenvolver seus combates de classe e reencontrar o caminho de uma perspectiva revolucionária, obstruída pela burguesia com sua sufocante campanha acerca da «morte do comunismo». Entretanto, este retrocesso do proletariado não tem colocado em questão de maneira alguma o curso histórico do enfrentamento de classes aberto pela onda de lutas de finais dos anos 1960: o futuro continua nas mãos do proletariado. É precisamente porque a luta de classes é um pesadelo permanente para a burguesia que esta lança incessantes campanhas ideológicas e manobras políticas para impedir o gigante proletário de irromper novamente no cenário histórico.
A crise presente do capital vem acompanhada por uma nova etapa de lutas operárias e nacionais, que têm como principal protagonista a nova geração de lutadores. A crise capitalista é uma oportunidade extraordinária para a formação política. O desenvolvimento da atual crise, e mais ainda seu desfecho, será determinado pela luta de classes, e não por pretensas elucubrações teóricas que ignoram o caráter mundial da crise, e pré-determinam o fracasso inevitável da luta. Para esta luta é necessário um programa que organize e oriente os combates locais em direção de uma luta política aberta contra a burguesia e seu Estado.
O fio da história se embaralha, mas não se corta: trata-se de completar a tarefa que, há quatro décadas, iniciaram o maio francês, o “cordobazo” argentino, a primavera de Praga, a Praça de Tlatelolco de México e a guerra nacional e social do povo vietnamita, apoiada pelos operários e a juventude da Europa e dos Estados Unidos. 1968 vive, não como um álbum de lembranças de “transgressões” hoje ultrapassadas, mas como ponto de partida e de inspiração da luta socialista de nossos dias.
Osvaldo Coggiola, professor do curso de História da USP
quarta-feira, 4 de junho de 2008
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